terça-feira, 28 de junho de 2011


LINGUAGEM, SACRIFÍCIO, SILÊNCIO1

O apelido de Paul Celan resultou da anagramatização do apelido familiar, Antschel. A família era de origem judia, como a maioria dos habitantes de Czernowitz, cidade onde o poeta nasceu, e elegeram o alemão como língua de cultura e integração social. O jovem Celan dominava o romeno, e aprendera o alemão correcto e sem inflexões. Concluiu o bacharelato em 1938, e estudou ainda francês, grego e latim. Nesse ano viaja para Tours. Está em Berlim na véspera da "Kristalnacht". Consegue passar o natal com os pais, mas o início da guerra impediu-o de voltar para a França . Em 1941, o exército romeno e as SS alemãs entram em Czernowitz, assassinam o rabino e começam as deportações. Os judeus escondiam-se nos fins de semana; os seus pais escolheram esconder-se numa antiga fábrica. No final da sétima semana de fugas e tormentos, a mãe resolve enfrentar o destino. Ao retornar a, Celan encontra-a vazia. No outono recebeu uma carta da mãe a informá-lo que o pai estava doente; foi depois abatido com um tiro, e a mãe sucumbiu pouco depois.
Com a libertação inicia a errância. Viveu em Bucareste onde aproximou-se do grupo neo-surrealista e trabalhou como tradutor. Passou algum tempo em Viena, onde publicou Der Sanden aus den Urnen, cujos poemas foram aproveitados para o que considerava ser o seu primeiro livro, Mohn und Gedächtnis. Em 1948 assume o exílio definitivo em Paris, onde estudou literatura germânica e licenciou-se em 1950, depois assumiu o leitorado na École Normale Supérieure, até o seu suicídio.
O discurso "Der Meridian", foi lido na entrega do prêmio Büchner de Literatura, de Darmstadt. Para Celan a década de 60 foi proveitosa, publicara obras centrais como Die Niemandrose, Atemwende, Fadensonnen, Lichtzwang. Traduzira em profusão autores como Mandelstam, Marianne Moorer, Ungaretti, René Char, Michaux, Superviele e Pessoa. É também nessa década que se acentuam as crises nervosas.
A obra de Celan concorre para fazer a síntese da lírica alemã contemporânea, mas sob o impacto histórico criado pela guerra. para o ensaísta italiano Giuseppe Bevilacqua, Celan "foi o primeiro a combinar a herança romântica, as instâncias realistas e a concepção trágica da História"2.
Ao presenciar a anulação gradual dos referenciais da sua vida, o poeta remete-se a um progressivo encontro com o silêncio. A tensão constante que o atormentava, traduzir-se-ia no impasse, na interrogação que atravessa a sua obra. Era a evidência dolorosa de estar a escrever numa língua geradora de desastres, "A língua dos assassinos da minha mãe". Celan acaba por fazer refractar tal premissa na sua poesia. É a testemunha e o intérprete da tragédia. No discurso que pronuncia na entrega do prêmio da cidade de Bremen, diz: "No meio das 'perdas' daquela época, uma coisa permaneceu 'acessível', próxima e salva - a língua".
A linguagem surge aparelhada pela depuração extrema; o poeta abrevia o mais possível para tornar legível o seu mundo. Mas a legibilidade é edênica, o poeta quer uma língua nova, exige um tu e um eu espectrais como interlocutores. A sua busca visava encontrar uma terra santa da linguagem para situar e fundar o seu espaço, só que este processo radical tinha um fim: o silêncio. O mergulho hermenêutico de Celan levou-o a quase anular o fluxo verbal; ele contrai o discurso e precipita-o numa trama perigosa, como vira Jean Starobinski: "Quando a palavra não pode habitar o mundo, nem o poeta pode habitar a palavra".
para se ler esta poesia é necessário aguçar a percepção, atendendo sempre às pausas, interrupções e fragmentações dos versos. As palavras isoladas vivem na página, Celan quer libertá-las desta "grade verbal" e a libertação dar-se-á através da consciencialização deste novo mundo poético. A sua genealogia poética não tem um centro específico, está em todas as partes, como bem viu Harald Weinrich: "Ele tende a assumir na sua pessoa, na sua obra, todo um século de poesia europeia".
Ao atirar-se bêbado ao Sena, numa data que oscila entre 20 e 21 de abril de 1970, encerrava assim um percurso ímpar. Ao aprofundar uma escrita admiravelmente vincada pela busca sintética de um recrudescimento da linguagem num nicho vocabular hipercondensado, como se a sua ânsia fosse submeter a palavra a uma cela feita de silêncio e lucidez.

1 Arte poética, trad. Yvette K. Centeno e João Barrento, Lx, Cotovia, 1996, publicado n o jornal Expresso.
2 La verità della Poesia, Einaudi, 1993.
3 op. cit., p. 31

quarta-feira, 22 de junho de 2011


NO PALCO DA POESIA1

Brecht é, sem dúvida, uma figura multifacetada que soube encarar os desafios, sem nunca abandonar as suas preocupações pessoais e o compromisso utópico das suas convicções políticas. Oriundo de Augsburgo, onde nasceu em 1898, Brecht ficou marcado para sempre pelas constantes incursões de juventude a Munique, onde conheceu o teatro popular encenado nas cervejarias, além de frequentar os cabarés tradicionais. Fora desde cedo distinguido como um talento dramatúrgico renovador, desenvolvendo a tradição alemã fortalecida pelas obras de Frank Wedekind e Friedrich Hebbel. Aos 24 anos, Brecht ganha o mais cobiçado galardão alemão, o Prémio Kleist.
Brecht foi admirado por gerações, na mesma medida que garantia ódios explícitos. O mais severo crítico da sua obra foi Friedrich Dürrenmatt, que não perdoava o posicionamento ideológico de Brecht. A implacabilidade do escritor suíço era tanta que, uma vez, não se coibiu de designá-lo como "o exemplo extremo de um poeta sentimental".
A poesia de Brecht actuou criticamente sobre os factos da História, fabricando um discurso elementar para combater a barbárie. Por isso, não é difícil encontrar interlocutores deste poeta. A objectividade do tratamento que a sua percepção assume, é sintetizada pela visão dialética sobre as coisas, o homem e a sociedade:

"Com as tábuas da lei acabaram-se os vícios.
Já se dorme com a irmã, sem nenhum prazer.
O crime tornou-se demasiado penoso.
Fazer versos é coisa por demais comum.
Em face da incerteza do momento
muitos preferem dizer a verdade
sem pensar no perigo que daí advém"2

Muitos poemas fazem parte das peças que escreveu, outros testemunham a forma como encarava a realidade, a recorrência ao coloquial e a inserção da ironia:

"Por que será que só falo
da caquética (!) quarentona desta casa?
os seios das raparigas
tê o calor de sempre.

Uma rima no meu poema
seria quase uma insolência"3
A temática é aprofundada com o início do exílio, em 1933. Vive em cidades como Praga, Viena e Zurique. O livro representativo deste período é Poemas de Svenbor. Walter Benjamin em "Versucht über Brecht" assinala que "A atitude associal de Sermonário Doméstico converte-se numa atitude social nos Poemas de Svenbor. Mas não se trata de uma conversão. Não destruímos aquilo que amamos"4. De facto, o poeta não faz mais do que assegurar uma dicção trabalhada segundo a emergência da visão individual; os dilemas humanos recriados numa camada corrosiva de insubmissão.
Distante de Paul Celan no que diz respeito ao direcionamento seguido, todavia é com este poeta que acaba por manter a interlocução contínua. São disso exemplo inúmeros poemas do autor de Rosa de ninguém5. Os contrastes são curiosos. Enquanto Celan se comprometia com uma "política da linguagem" elevada a um extremo grau metafórico e hermético, Brecht acreditava no adensamento reflexivo e ideológico para transformar a História. talvez tenha sido estes pormenores que levaram Celan a recuperar temas específicos de Brecht - o poema sobre o suicídio de Walter Benjamin, ou "Uma folha sem árvore para B. B.".
As imposições históricas que uniram ambos os autores , encontram aí a encruzilhada, e uma só forma de combater a escuridão que persiste em toldar o humano: a liberdade do homem encontrada através da palavra.

1 Poemas, trad. Arnaldo Saraiva, Porto, Campo das Letras; publicado no jornal Expresso.
2 op. cit., p. 55/6
3 idem, p. 79
4 in Tentativas sobre Brecht, trad. Jesús Aguirre, Madrid, Taurus, 1975, p. 72
5 Sete rosas mais tarde, trad. Y. Kace Centeno e João Barrento, Lx, Cotovia, 1993

terça-feira, 14 de junho de 2011

ALEMÃES


TRAKL1

Escreveram-se milhares de páginas, teses e livros sobre a tragédia da Primeira Guerra Mundial. Há um pormenor que, ao meu ver, merecia mais atenção: a participação dos artistas e escritores que estiveram na frente de combate. Recordo figuras como T. E. Hulme, Wilfred Owen, Apolinnaire e Georg Trakl, só para citar alguns exemplos. Detenho-me em Trakl, que na verdade não morreu em combate. A personalidade frágil e maníaco-depressiva do poeta não resistiu à visão das centenas de mortos que chegavam à enfermaria onde estava a cumprir serviço e, a 4 de novembro de 1914, tomou uma overdose de cocaína.
Nascido em Salzburgo, em 1887, Trakl foi um dos nomes fulgurantes do movimento expressionista alemão onde pontuaram Ernst Stadtler, Georg Heym, Gottfried Benn. Publicou só uma recolha de poemas, em 1913, com a ajuda do amigo, Ludwig Von Ficker. As fotos que restaram do poeta testemunham o espírito tenso, que desde cedo ficara dependente das drogas e do álcool. para completar o quadro negro da sua vida, Trakl manteve uma relação incestuosa com a sua irmã, Grete - que aparece de forma obsessiva nos poemas.
O poeta conseguiu gerar uma poética carregada de atrito com o mundo. Ferido pelo reflexo do horror interior, debateu-se com uma linguagem genuína. Era como se o poeta fosse porventura tocado por uma melancolia atormentada, em que a presença da morte, a soturnidade perceptiva e o tomo solenemente distante configurassem a sua imagética pessoalíssima. Em poemas como "Lamento", "Grodek" - escrito pouco antes da sua morte -, verifica-se o tom peculiar que encontra uma visão aterradora da realidade:

"Na tarde retumbam os bosques de Outono

De armas mortíferas, os plainos dourados

E lagos azuis, e por cima o Sol

Mais lôbrego rola

(…)

Mas calmos juntam-se no fundo dos prados

Nuvens vermelhas, onde mora um deus irado,

O sangue vertido, lunar frialdade”1


Herdeiro de uma lírica que tem Novalis como preceptor, mas também a possessão visionária de Hölderlin, Trakl - utilizando uma imagem de Gottfried Benn em Problem der Lyrik - apanha a lança e projeta-a para além de si. Daí a possibilidade de rastrear indícios seus em boa parte da poesia alemã. O assombro de Rilke ante a sua descoberta é elucidativo. Paul Celan foi um dos poetas contemporâneos que celebrou um diálogo direto com Trakl.

A obra mínima que deixou, à maneira de Kavafis, não limita a projeção desta poesia que causa uma tensão constante. Profundamente obscura e violentamente nostálgica, a poesia de Trakl exerce uma atração avassaladora sobre o leitor. Felizmente a sua obra cativou a atenção de tradutores portugueses, como Paulo Quintela e João Barrento.

1 Poemas - Georg Trakl, trad. Paulo Quintela, Porto, Oiro do Dia, 1981, publicado no jornal Expresso, em 1999.

2 Outono Transfigurado, trad. João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992.


quarta-feira, 8 de junho de 2011


POETICAMENTE CORRETO1

Sob os carvalhos de Sligo, em Drumcliff, onde está enterrado, Yeats jamais poderia imaginar que um poema como "The Lake of Innisfree" transformar-se-ia num símbolo iniciático para os jovens poetas da Irlanda. O prémio Nobel de Literatura de 1995 foi dado, pela terceira vez, a um representante da poesia irlandesa, Seamus Heaney.
Existem diversos aspectos que fizeram a poesia irlandesa divergir dos caminhos inaugurados por Yeats, embora esteja em dívida perpétua com o autor de "Sailing to Byzantium". Ao mesmo tempo que explora o manancial cultural das tradições, o poeta irlandês aprofunda a busca do real na sua poesia. isto implica a consciência sobre a ruptura que há no interior desta poesia, ou seja, da não utilização do gaélico como expressão literária. Em contrapartida defendem a sua dissociação da literatura genuinamente inglesa, praticando um gênero de exílio interior e linguístico. A ruptura concretiza-se naquela instância onde os temas , as ambiências se singularizam e a forma exprime e funda a sua legitimidade. Chegamos à encruzilhada em que as sendas abertas por Yeats, Patrick Kavanagh, posteriormente Heaney, Thomas Kinsella, John Montague e, mais recentemente, Eamon Grennan e Thomas McCharthy encontram a equação dos valores.
As personagens emblemáticas do panteão mitológico da Irlanda tomam outra forma. Cuchulain e Ossian falam com outras vozes. Os poderes simbólicos da tradição não têm importância, trata-se de realizar e instaurar os desejos e a consciência de um povo dividido. O "Twilight celtic" dissipa-se cada vez mais, confirmando-se no tom, às vezes, telúrico de Seamus Heaney, o mais mediático de todos os poetas daqueles país.
Este irlandês do Ulster, nascido no condado de Derry, viu o Nobel homenagear indiretamente as paisagens bravias que nunca deixou de evocar. A sua poesia proclama a comunhão do homem com a terra, revolve o passado histórico, alegoriza os tumultos do presente e disponibiliza ao leitor imagens refundidas de uma região pessoal:

"Regressei a um longo areal,
à curva em ferradura de uma baía,
e só encontrei, trovejante,
o poder secular do Atlântico.
(...)
aqueles saqueadores fabulosos,
os que jazem em Dublin e nas Orkneys
com as suas longas espadas
ganhando ferrugem ao seu lado"2


Ele explora os conflitos gerados pelos condicionamentos políticos :

"O Ulster era britânico, mas sem direitos
sobre a lírica inglesa: à nossa volta, embora
não lhe tivéssemos dado um nome, o ministério do medo"3
Sem deixar de evocar o apelo milenar da terra, pela imagem que difunde, Heaney parece uma espécie de Pablo Neruda celta, um Ievtuchenko irlandês. O sucesso da sua poesia frente ao público e à crítica corrobora esta ideia. A decisão dos acadêmicos veio mais uma vez divulgar a obra de um autor que já se notabilizara no circuito mundial, mas agora poderá chegar a um número maior de leitores.

1 Texto sobre o prémio Nobel de 1995, publicado na "Revista" do Expresso.
2 Da Terra à Luz, trad. Rui Carvalho Homem, Lx., Relógio d'Água, 1997.
3 Op. cit., p. 157.



quinta-feira, 2 de junho de 2011


UMA ROSA PARA YEATS1

You were silly like us: your gift survived it all;

The parish of rich women, physical decay,

Yourself; mad Ireland hurt into poetry.

Now Ireland has her madness and her weather still,

For poetry makes nothing happen: it survives2

Para Ana Lopes, 15 anos depois.

Há poetas que dispensam apresentação. Com tais poetas é difícil acionar o diapasão da crítica, porque a sua elegância engloba todos os sentidos. Há poetas que nascem completos, aprimoram ao longo da vida as arestas dos seus versos, versos que não ocultam complexidades, cujo dizer aflora numa imagem. Por essa via, tais poetas acabam por ligar-se de forma intensa à terra e aos homens.

Chamá-lo de pré-rafaelita tardio, simbolista mallarmeano, líder da ressurgência de Blake ou participante da renascença céltica é deixar de lado o essencial, isto é, que William Butler Yeats foi o maior poeta de língua inglesa do seu tempo. Este é o verdadeiro tributo e ele obteve-os todos - mas acreditava que "tudo não passara do óbvio logro da derrota". O tom levemente amargurado escondia o que muitos críticos e biógrafos foram unânimes em concluir: o mais desejado tributo teria sido apenas o amor de Maud Gonne, a Helena de Tróia irlandesa que evocou, a militante nacionalista que amou.

Conheceu-a ao completar 23 anos, por duas vezes pediu-a em casamento e recebeu sempre a mesma resposta. O poema "Quando fores velha"3, foi escrito em 1891, por altura do primeiro pedido. Estiveram juntos na campanha de agitação nacionalista e na peça que escreveu para ela, "The Countess Cathleen", mas a relação não ultrapassou a amizade. Maud casou com outro militante e mudou-se para Paris, onde nasceu a sua única filha. O poema, "Oh, não ames demasiado tempo" resultou do impacto da notícia do casamento. A presença de Maud acompanhá-lo-ia durante todo o seu percurso, e cada palavra, cada verso parece desenhar por trás o rosto desta mulher.

"A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,
com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro
para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão
/profundamente no meu coração"4

Yeats era um autodidacta autêntico e um acérrimo artesão do verso. A sua simplicidade é aparente, a leveza da linguagem dissimula o refinamento estilístico à procura do apuro em cada verso, reescrito vezes sem conta, não sem antes assobiar o ritmo, o que explica o peso da música em Yeats;

"Ouço a branca beleza que também suspira,
durante horas em que tudo deve consumir-se como orvalho,
mas chama sobre chama, abismo sobre abismo,
trono sobre trono no meio do sono,
pousadas as suas espadas sobre os joelhos de ferro,
meditam nos seus altos mistérios solitários"5

Eis a religião da beleza do poeta, recebida em transfusão directa do pai, com quem lia
poemas em voz alta após o pequeno-almoço. Uma religião poética inspirada nas religiões da Irlanda, no ocultismo, na política, na Rosa-Cruz, e em Blake. Os símbolos se ocultam nestes poemas, encimados pela imagem da 'rosa simbólica' que absorve as ressonâncias:

"Quando se soltarão do céu as estrelas
como chispas de uma forja, quando morrerão?
É chegada a tua hora, teus grandes ventos acordam
longínqua, secretíssima, inviolada rosa"6

Yeats casou, teve filhos, reflectiu sobre a guerra, recebeu honrarias, exercitou outras formas de ocultismo, agora de parceria com a mulher George Hyde-Lees. E continuava a amar Maud. "Os cisnes selvagem de Coole" é o lamento do homem que observou o tempo avançar e a solidão a envolver a vida. A memória do amor permanecia intacta:

"Dezanove Outonos se passaram desde que
os contei pela última vez:
(...)
os seus corações não envelheceram;
paixão ou conquista solicitam ainda
seu incerto viajar"7

O Nobel veio em 1923. Enganavam-se aqueles que pensavam ser "Colle" o seu canto do cisne, Yeats preparava-se para um novo voo em direção à grande viragem da sua obra. "The Tower" reúne alguns dos poemas mais famosos - "Sailing to Byzantium", Leda and Swan", "Two Songs from a play". José agostinho Baptista traduz com segurança este longo poema em que Yeats, após visitar um colégio feminino, fascinado com a beleza das jovens, vê na juventude estampada nos rostos a beleza de outrora daquela que amara. O poeta resgata a memória da mulher e consagra a juventude. O poema tem passagens memoráveis e versos como - faço questão de citar no original -;

"And bring beauty's blind rambling celebrant"8

que reverbera um tom cristalino; ou ritmos como:

"And further add to that
that, being dead, We rise,
Dream and so create
Translunar Paradise"9

Era o poeta da maturidade, senhor supremo de si e do ofício, fortalecido pelo tom contemplativo e o timbre severo do último período. Seguir-se-iam poemas como "Coole Park and Ballylee", "Bizâncio", "Jane, a louca, acerca de Deus", ou "A deserção dos animais do circo". Há poetas que rivalizam com a própria obra. Yeats era um deles.
O poeta que Middleton Murry considerava um "esteta ultrapassado", cujo poema "The Lake of Innisfree" fora ironizado por Robert Graves, e que Eliot criticou ao afirmar que "O mundo sobrenatural de Yeats é um equívoco", este poeta tornar-se-ia um dos principais símbolos do século XX.
1 Uma antologia, trad. José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1986; publicado no jornal Expresso.
2 O poema "Em memória de W. B. Yeats" de W. H. Auden, cito a tradução de Margarida Vale de Gato:
"Foste tonto como nós, a tudo sobreviveu teu talento;
a paróquia das ricas senhoras, à decadência física,
a ti mesmo, a louca Irlanda feriu-te para a poesia.
Agora a Irlanda tem ainda a sua loucura, a sua temperatura"
3 Op. cit., p. 15
4 idem, p. 21
5 idem 27/29
6 idem, p. 37
7 idem 75/77
8 idem p. 88
9 idem, p. 112

sexta-feira, 27 de maio de 2011




O MENTOR DAS IMAGENS1

"E o velho T. E. Hulme foi lá,
com um montão de livros da biblioteca,
a biblioteca de Londres, e um obus enterrou-os num buraco de trincheira,
e uma bala atingiu-o no cotovelo
...depois de atravessar o cara que estava na sua frente,
e ele leu Kant no hospital em Wimbledon,
no original,
e a direção do hospital não gostou daquilo"2

Foi assim que Ezra Pound homenageou Thomas Ernest Hulme no poema XVI da sua obra maior, Os Cantos. Nessse poema, Pound recorda os amigos que estiveram ao seu lado numa trincheira específica, a do Imagismo, e na trincheira verdadeira da Primeira Guerra Mundial: Richard Aldington, Gaudier Brzeska, Wydham Lewis e Hulme, que morreu em 1917, com 34 anos. A fulgurância das ideias, o fascínio pelo diálogo e a ousadia das propostas estéticas congregaram ao redor de si toda a geração que iria ditar os rumos da literatura no mundo anglo-saxónico.
Durante as duas primeiras décadas do século XX, nas cadeiras do Poet's Club ou do restaurante Eiffel Tower, em Londres, as discussões cruzavam águas revoltas. Uns propunham a utilização das formas orientais como o haiku e o tanka para renovar a poesia inglesa; outros batiam-se pelo verso livre. As opiniões dividiam-se. Coube a T. E. Hulme promover alguma coesão e o título de inspirador principal destes artistas que ficariam conhecidos como "Imagistas".
Hulme acreditava no surgimento de uma poesia "séria e sofisticada". Tornava-se necessário recuperar, para a nova época que se avizinhava, outra percepção e outra expressão. Teorizou acerca de um gênero de neoclassicismo que procurava subtrair as influências do romantismo na poesia inglesa. Para Hulme, a visão do artista não deveria ser compósita, mas converter-se num todo concentrado, e assim comunicar a imagem de forma vital. A criação de novas metáforas e analogias, o emprego da linguagem coloquial, do verso livre e a utilização de novas sequências rítmicas formam o conjunto destas propostas. Segundo defendia, o poeta deveria selecionar palavras concretas que permitissem traduzir as propriedades visuais das coisas:
"Não mais nos esforçaremos por atingir a forma absolutamente perfeita em poesia; em vez destas diminutas perfeições da palavra e da frase, a tendência será para a produção de um efeito geral, o que retirará obviamente o predomínio ao metro e ao número regular de sílabas como elemento da perfeição do discurso. Já não nos interessa que as estrofes sejam moldadas e polidas como jóias, mas que se comunique uma vaga disposição do espírito. procuramos em todas as artes de expressão individual e pessoal em vez de tentarmos alcançar qualquer beleza absoluta"3
Na divisão que fez entre romantismo e classicismo, Hulme diz que o artista romântico ultrapassa os limites do homem; o artista clássico, pelo contrário, tem absoluta consciência destes limites. Foram teorias como estas que serviram de apoio aos fundamentos do Imagismo.
Na célebre nota introdutória aos cinco poemas deixados por Hulme e publicados como apêndice do seu próprio livro, Ripostes, Pound reconheceu a dívida:
"Os imagistas são descendentes desta escola esquecida de 1909, quando Hulme efectuou a sua organização".
Os escritos sobre arte começaram a ser publicados em 1913. A leitura atenta destes textos leva-nos a concluir que as preocupações de Hulme apontavam para um interesse cada vez maior pelas artes plásticas. Hulme declarou que a arte estava à procura de uma nova forma de ver, perceber e exprimir as coisas; que só outra atitude do artista perante a apreensão do mundo poderia criar uma nova abstração:
"Se negarmos completamente a existência de uma 'tendência para a abstração' em arte, vamos naturalmente negar a sua manifesta aparição em Cézanne. Dir-me -ão que a simplificação de planos (da qual evidentemente surgiu o cubismo) não é provocada por qualquer 'tendência para abstração', antes é o resultado de um esforço para dar ao objeto um tipo de realidade mais sólido. Poderão defender que, quando Cézanne afirmou que as formas da natureza podiam ser reduzidas ao cone, ao cilindro e à esfera, ele pretendia dizer algo muito diferente do significado óbvio das suas palavras. Esta deturpação de Cézanne resulta do facto de se ter recusado a ver a verdade óbvia, que a sua obra insinua essa 'tendência para a abstração"4.
A primeira edição destes escritos foi editada em 1924, com a organização de Herbert Read. Contudo, havia ainda muito material disperso. Sucessivas edições foram surgindo e a importância do seu trabalho recebeu uma avaliação mais objectiva, embora não fosse do seu agrado transformar-se num pensador sistemático. Na verdade a leitura desses textos leva-nos a acreditar que, como Henri Bergson já havia previsto na carta que escreveu aos directores de Cambridge para que Hulme pudesse voltar a estudar naquela universidade, ele era um ensaísta completo.
A presença do seu pensamento encontra-se na obra de figuras tão díspares como Pound, Eliot, Amy Lowell, Marianne Moore, Hilda Doolitle e Walace Stevens. Isto demonstra a amplitude que as suas ideias atingiram e é o reconhecimento que todo o artista gostaria de ter.

1 Imagens da modernidade - ensaios sobre poesia, Lx., Colibri, 1995; publicado no jornal Expresso.
2 Os cantos, RJ, Nova Fronteira, 1986.
3 Op. cit., p. 54
4 Op. cit., p. 194.



segunda-feira, 23 de maio de 2011



O LOUCO DE DEUS1

Da linhagem dos grandes visionários, William Blake é um poeta que ultrapassou as linhas usuais seguidas pelos românticos ingleses. Um dos que o defendeu das falácias pejorativas foi Wordsworth: "Não há dúvida que esse homem era louco, mas há algo na sua loucura que me interessa mais do que a sanidade de Byron e Walter Scott".
A sua biografia enumera várias passagens intrigantes. Aos quatro anos disse ter visto o rosto de Deus pela janela do seu quarto. As visões continuaram e aos seis anos afirmou que encontrara o profeta Ezequiel sentado num descampado, e que ao passear pelos bosques de Peckam, em Londres, vira anjos a brincar numa árvore. Embora tenha estudado na Academia Real das Artes, a sua formação literária fez-se na mais completa liberdade, tutelada por leituras de Paracelso, Jacob Böhme, Shakespeare, Milton e a Bíblia. Motivos não faltavam para tal apetência, já que o pai era seguidor dos preceitos de Emanuel Swedenborg. A partir dos 18 anos tornou-se gravador, aperfeiçoando uma técnica de gravura com um método particular baptizado como "impressão iluminada", que consistia num processo transmitido, segundo afirmou, pela visão do espectro do falecido irmão. A técnica consistia no uso de cera e ácido e permitia-lhe usar na prensagem todos os matizes de cores desejáveis. Aplicou-a para ilustrar Os Portões do Paraíso e outras obras que publicou em edições reduzidíssimas. O texto e as ilustrações eram gravados em placas de cobre que serviam para impressão das páginas, em seguida os desenhos eram coloridos minuciosamente à mão, trabalho em que participava a mulher Catherine Boucher, que o poeta ensinara a ler e a pintar.
Blake não foi poupado pelos críticos, tanto pelo seu trabalho literário como o pictórico. Na Pintura era considerado um neomaneirista ameno, e na poesia um neogótico deslocado. Não era nem uma coisa nem outra, estava além das designações rasteiras, a engendrar cânones absolutamente pessoais, demonstrando uma rebeldia explícita contra a sua época.
O visionarismo poético e profético cultivado por Blake opunha-se ao racionalismo do século das luzes, o enciclopedismo e a Academia das Ciências. Ele acreditava que figuras como Bacon, Newton e Locke formavam uma falsa tríade do racionalismo inglês. No afã de encontrar a explicação da história e da natureza do mundo, inspirado na ideia da queda do homem - daí o fascínio por Milton - e da redenção final, Blake arquitecta um sistema poético original, prescrito por um mecanismo gnóstico dos ideais. Despontam então personagens como Urizen, Thiel, Orc ou Enitharmon, que encenam as encarnações místicas da sua utopia poética, materializada na luta da imaginação contra a tirania da razão. O dispositivo funcional deste exercício personifica o ritmo enérgico, o tom bíblico e a ressonância apocalíptica das imagens:

"Ver num grão de areia um mundo,
Um céu numa flor silvestre,
ter na mão o infinito,
Numa hora a eternidade."

Na última fase, encerrada em 1820, surgiram os livros proféticos - As visões da Filha de Albion, América, O primeiro Livro de Urizen, O Livro de Los, Milton e Jerusalém. Blake aproveitou para mudar o estilo, abolindo a rima e esculpindo um gênero de verso livre constituído por sete acentos rígidos. Depois abandonou a poesia e passou a dedicar-se unicamente à gravura. O homem que adorava crianças e as pessoas simples, dono de um caráter colérico, morreu cantando em 1827. Tinha setenta anos.

1 Poemas do Manuscrito Pickering seguido d'os Portões do Paraíso, trad. Manuel Portela, Antígona, 1996; publicado no jornal Expresso.
2 op. cit., p. 37.